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Resenha: O Escravo de Capela - Marcos DeBrito


Edição: 1
Editora: Faro Editorial
ISBN: 9788562409899
Ano: 2017
Páginas: 288

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Livro cedido e parceria com a editora
Sinopse: Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore. Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas. Em “O Escravo de Capela”, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos. Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte. Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.


Começo essa resenha dizendo que meu primeiro contato com alguma obra do autor foi o filme "Condado Macabro". Não consegui terminar de assisti-lo pelo simples fato de: eu odeio palhaços.
Depois disso, me vejo envolta pelo mistério e horror contido neste livro. O Escravo de Capela foi uma surpresa para mim tando em sua versão física que está linda demais, quando no conteúdo que sangra entre as páginas e nos deixa ávidos por matança e vingança! hehehehehe
"Os escravos sabiam que eram poucos os homens que sobreviviam a uma noite pendurados de cabeça para baixo com os punhos atados e o corpo anavalhado cheio de sal para lhes arder as feridas. Ainda eram deixados inteiramente nus, cobertos por mel para que os insetos noturnos os picassem. Os requintes de sadismo eram infinitos."
Como a sinopse diz, a história se passa na época escravocrata do Brasil Colônia. Vamos acompanhar a história de Sabola, um negro que foi vendido como escravo para a Fazenda Capela. Sebola ainda é jovem e não fala nada do nosso português. Chegou a pouco tempo na fazenda, mas não vê a hora de se ver livre. Logo que chega, faz amizade com outro negro, Akili Akinsanya, que teve suas pernas atrofiadas devido a uma surra que levou do feitor a muito tempo atrás. Akili sabe que não pode fugir, mas passa a ajudar Sabola nessa empreitada.
A Fazenda Capela é conhecida pela sua plantação de cana. O senhor dessas terras é Antônio Batista da Cunha Vasconcelos; o feitor, seu primogênito Antônio Segundo. Este último é encarregado de cuidar dos negros que fazem a colheita da cana, e assim, Antônio faz o que mais gosta: maltratar os negros e quando pode, surrá-los até a morte para aplacar sua sede de sangue. 

O destino de Sabola é traçado quando o mesmo é surrado até a morte por tentar fugir da fazenda. No auge de seu sadismo, Antônio corta uma das pernas de Sabola enquanto Jonas, seu capataz, o sufoca com um saco para abafar os gritos de dor que o mesmo emana.
Em contrapartida, conhecemos o dia a dia da casa-grande e seus ocupantes. Além de Antônio, Batista tem outro filho, Inácio que volta a fazenda para passar alguns dias. Inácio não se importa com a fazenda, rapaz estudado e formado médico, Inácio quer mesmo abrir mão de sua herança e continuar sua vida longe daquele lugar.
Mas nem tudo acontece como queremos e Inácio se apaixonará e descobrirá segredos sórdidos escondidos nas paredes da casa-grande.
"A lâmina ainda suja do sangue do animal foi cravada impetuosamente próxima ao joelho direito de Sabola. O jovem quase inconsciente despertou pela dor excruciante e seu berro pôde ser ouvido da mansão, mesmo de portas fechadas."
Partindo dessa premissa, Marcos DeBrito cria um enredo assustador e verossímil, que desfaz aquela imagem infantil que temos do famoso Saci Pererê. Abusando de detalhes sangrentos e do mais puro terror, o autor recria essa história com personagens marcantes que nunca mais abandonarão nossas mentes.
Sabemos por meio da história que o Brasil escravocrata foi uma época de terror verdadeiro, vivenciado apenas pelos negros. Neste livro, DeBrito retrata sem censura, algumas das mais variadas maldades sofrida pelos negros. Nos dá nojo e vergonha, nos faz pensar a que ponto o ser humano pode ser hipócrita, ganancioso e sádico.

O Saci criado pelo autor é perfeitamente construído, mantém as características pelas quais o conhecemos e ainda trás algumas outras para deixá-lo assustador. A criação do Saci é forte e sangrenta. O livro todo não mede maldade e realidade. Marcos DeBrito conseguiu, em poucas páginas, criar uma história única que não perde em nada, só agrega. O Escravo de Capela é tão real que poderia sim ser a verdadeira história do Saci Pererê; e não obstante, o autor ainda narra a criação de outro personagem do nosso folclore: a Mula sem Cabeça, o que foi assustador e lindo de se ler.
"O defunto do escravo estava de pé sob a ombreira e, como a mula, também ostentava um físico mais agressivo. Antes baixo e malnutrido, o negro agora era corpulento e ameaçador, como uma criatura que acabara de abandonar os tormentos do inferno. Mas era no rosto que o terror despachava sua epístola. Mesmo coberto com o pano encarnado pelo próprio sangue que vertera até a morte, a boca estava livre para expor os afiados dentes amarelados. E entre os buracos da trama de algodão, podia-se notar a intenção de carnificina nos olhos opacos cavados no interior do crânio."
A narrativa é em terceira pessoa, nos dando total abrangência dos pontos de vista necessários para irmos desvendando a trama. Minha leitura não fluiu na rapidez que eu desejava por não estar acostumada com a escrita rebuscada do autor. Acostumei-me com escritas rápidas e sucintas, com poucos adjetivos, o que o leitor não encontrará aqui. DeBrito abusa do vocabulário extenso da língua portuguesa e nos trás sinônimos diversos durante a leitura. A diagramação é simples, mas bem feira, sem erros aparentes. A capa é perfeita, condiz com o enredo apresentado e nos deixa curiosos para saber mais. O corte das páginas em vermelho trouxe um charme a mais para um livro completo em todos os sentidos.

Do mais, só posso indicar. Gostei muito de ter conhecido essa versão da história do Saci, claro que o terror/horror sempre terá um lugar no meu coração trevoso, ainda mais se for nacional.
Para quem gosta do gênero, não deixe de conhecer este livro. Tenho certeza que vocês vão gostar e se surpreender com o quanto de elementos assustadores a história do Brasil pode conter.


Avaliação: 



Sobre o autor: 




Marcos DeBrito nasceu em Florianópolis e mudou-se para São Paulo em 1998 para estudar cinema. Formado pela FAAP, é diretor e roteirista. Seu curta-metragem Vídeo sobre tela, de 2001, ganhou o prêmio especial do júri no Festival de Gramado. À sombra da lua é seu primeiro romance.




2 comentários:

  1. Mas minha filha, vamos treinar essa leitura aí com livros mais "difíceis", essas 4 estrelas aí estão me doendo u.u UAHUSAUHS
    Esse livro é maravilhoso. Eu adorei tudo o que o Marcos fez e queria muito que ele fizesse outros livros no mesmo estilo com os outros personagens do nosso folclore. Daria uma série massa.

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  2. Completamente louca para ler esse livro. Adorei o cenário dele e já fui atrás de outras obras do autor de tantos comentários.

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